Publicado em: 29/01/2026
Bastaram as primeiras chuvas mais consistentes para o cenário se repetir. O mar, que deveria ser cartão-postal, ganhou tons escuros, aspecto turvo e um cheiro forte que incomodou quem passava pelo calçadão do Mucuripe, nesta semana. Próximo a uma galeria pluvial que corta a região, a água que desaguava no oceano não parecia chuva — parecia denúncia.
Quem sentiu primeiro foi Ana Paula Nogueira, 39 anos, personal trainer, acostumada a correr pela orla logo no início da manhã.
“Quando me aproximei, o cheiro veio antes da água. Não era maresia. Era algo pesado, ruim mesmo. Mudei o trajeto na hora”, contou.
A cena chamou atenção de moradores, trabalhadores e comerciantes da área. Sacolas plásticas, restos de lixo doméstico e uma água escura eram expelidos diretamente no mar, num fluxo contínuo. Para quem vive ali, a sensação é de déjà vu.
O problema não nasce com a chuva, mas ela funciona como gatilho. Fortaleza possui uma extensa rede de galerias pluviais, projetadas para receber apenas água da chuva. O que acontece, na prática, é outra história.
Ao longo dos anos, imóveis — residenciais e comerciais — passaram a lançar esgoto irregularmente nessas galerias, criando um sistema clandestino que só se revela quando o volume de água aumenta.
O urbanista Eduardo Linhares, que pesquisa drenagem urbana e ocupação desordenada na Capital, explica que a cidade paga hoje o preço de decisões antigas.
“Em muitos bairros, principalmente próximos à orla, houve crescimento sem fiscalização rigorosa. As galerias viraram atalhos para quem não queria arcar com ligação correta de esgoto”, afirma.
Quando chove, tudo o que está escondido é empurrado para o mar.
Para Seu Raimundo Alves, 62 anos, vendedor de milho cozido há quase três décadas no Mucuripe, o impacto vai além do incômodo.
“Tem dia que a gente perde venda. O turista chega, sente o cheiro, vai embora. E quem fica é a gente, respirando isso”, relata.
Ele conta que a situação piora sempre entre janeiro e abril. “Todo ano é assim. Passa um tempo, melhora, mas quando chove de novo, volta tudo.”
Além do prejuízo econômico, há o risco à saúde. Crianças brincando na areia, banhistas desavisados e pescadores artesanais ficam expostos a uma água potencialmente contaminada.
A cada novo inverno, o debate ressurge: quem fiscaliza, quem pune, quem resolve? Medidas pontuais são anunciadas, algumas ligações irregulares são corrigidas, mas o problema nunca desaparece por completo.
Enquanto isso, a natureza segue dando sinais claros de que algo está errado.
O mar escurecido não é fenômeno natural. É consequência direta da forma como a cidade trata seu esgoto, suas galerias e, no fim das contas, sua própria orla.
Quando a chuva cai, Fortaleza é obrigada a encarar aquilo que tentou esconder debaixo do asfalto.