Publicado em: 05/02/2026
No interior do Ceará, distante pouco mais de 200 quilômetros de Fortaleza, existe uma cidade onde o silêncio tem ganhado espaço nas ruas, nas calçadas e até nas conversas entre vizinhos. São João do Jaguaribe, no Vale do Jaguaribe, entrou para um ranking que poucos municípios gostariam de liderar: segundo o Censo 2022 do IBGE, a cidade possui a maior porcentagem de imóveis desocupados do Brasil, com cerca de 29,1% das casas vazias.
O dado, embora estatístico, carrega histórias reais, afetivas e profundas. São portas fechadas, janelas empoeiradas e casas que guardam lembranças de famílias que partiram — muitas delas em busca de trabalho, estudo ou melhores condições de vida em centros urbanos maiores.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, São João do Jaguaribe tem pouco menos de 6 mil habitantes, mas uma quantidade significativa de residências que hoje não têm moradores fixos. O fenômeno chama atenção não apenas pelo percentual elevado, mas pelo contraste com o passado da cidade, que já foi mais movimentada e economicamente ativa.
Especialistas apontam que esse cenário é resultado de uma combinação de fatores:
Êxodo rural contínuo
Falta de oportunidades de emprego formal
Envelhecimento da população
Jovens migrando para cidades maiores, como Fortaleza, Russas e Limoeiro do Norte
Moradores mais antigos sentem na pele o impacto dessas mudanças. Maria de Fátima, de 63 anos, vive na cidade desde a juventude e acompanha de perto a transformação do lugar.
“Antes, a gente conhecia todo mundo da rua. Hoje, muitas casas estão fechadas há anos. Os filhos foram embora, os pais envelheceram ou morreram, e as casas ficaram.”
Ela conta que algumas residências pertencem a famílias que moram fora do estado ou até do país, mas mantêm os imóveis fechados por apego emocional ou por dificuldade de venda.
Apesar do rótulo de “cidade fantasma”, São João do Jaguaribe ainda pulsa. Escolas funcionam, o comércio resiste e festas tradicionais seguem acontecendo. O problema, segundo estudiosos, não é a inexistência de vida, mas a redução da densidade social, o que impacta diretamente a economia local.
Menos moradores significa:
Menos consumo no comércio
Menos arrecadação
Dificuldade de atrair novos investimentos
Esse ciclo acaba se retroalimentando e ampliando o número de imóveis fechados.
Um detalhe curioso revelado por pesquisadores é que muitas dessas casas estão regularizadas, mas não entram no mercado imobiliário. As razões variam:
Heranças divididas entre vários familiares
Apego emocional à casa dos pais ou avós
Falta de interesse em alugar por valores baixos
Em cidades pequenas, vender um imóvel nem sempre é simples — e muitas vezes não compensa financeiramente para quem mora longe.
O caso de São João do Jaguaribe acende um alerta para gestores públicos e planejadores urbanos. O fenômeno não é isolado: outras cidades do interior nordestino vivem situação semelhante, embora em menor escala.
Para especialistas, soluções passam por:
Incentivo à economia local
Políticas de atração de pequenos empreendimentos
Programas de reutilização de imóveis vazios
Investimento em conectividade e trabalho remoto
Mais do que números, São João do Jaguaribe representa um retrato do Brasil profundo, onde tradição, memória e desafios convivem diariamente. A cidade não está vazia de histórias — apenas espera novos capítulos.
E a pergunta que fica é:
👉 o interior brasileiro vai conseguir se reinventar antes que mais ruas fiquem silenciosas?